sábado, 30 de junho de 2012

Viver











"Mas há a vida
que é para ser 
intensamente vivida,

Há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.

Sem nenhum medo.
Não mata."
- clarice lispector -

sexta-feira, 29 de junho de 2012

"Se vai tentar siga em frente.



























Se vai tentar 
Siga em frente.

Se não, 
Nem começe!

Isso pode significar perder namoradas
esposas, família, trabalho...e talvez a cabeça.

Pode significar ficar sem comer por dias,
Pode significar congelar em um parque,

Pode significar cadeia,
Pode significar caçoadas, desolação...

A desolação é o presente
O resto é uma prova de sua paciência,
do quanto realmente quis fazer

E farei, apesar do menosprezo
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.

Se vai tentar, 
Vá em frente.

Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes

Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.

- charles bukowski -

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O dizer


"O ato de dizer projetado 
é o ato de dizer que, 
ao preparar o dizível, 
traz ao mundo juntamente 
o indizível."
- Heidegger -

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Eu te amei muito.


















"Eu te amei muito.
Nunca disse, como você também 
não disse, mas acho que você soube.
Pena que as grandes e as cucas 
confusas não saibam amar.
Pena também que a gente 
se envergonhe de dizer, a gente não devia 
ter vergonha do que é bonito.


Penso sempre que um dia a gente 
vai se encontrar de novo,
e que então tudo vai ser mais claro,
que não vai mais haver medo nem coisas falsas.
Há uma porção de coisas minhas que você não sabe,
e que precisaria saber para compreender todas as vezes
que fugi de você e voltei e tornei a fugir.

São coisas difíceis de serem contadas,
mais difíceis talvez de serem compreendidas.
Se um dia a gente se encontrar de novo,
em amor, eu direi delas,
(caso contrário não será preciso).

Essas coisas não pedem resposta
nem ressonância alguma em você:
eu só queria que você soubesse
do muito amor e ternura que eu tinha,
e tenho, pra você.

Acho que é bom a gente saber
que existe desse jeito em alguém,
como você existe em mim.”
cfa

terça-feira, 26 de junho de 2012

Escolhas
















“Peguei minha garrafa e fui pro meu quarto. 
Fiquei só de cueca e deitei na cama. 
Nada estava em sintonia, nunca. 
As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe:
comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, 
encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, 
halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, 
pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, 
cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte, congelados, 
Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, 
suicídio, roupas feitas a mão, vôos a jato, Nova Iorque, 
e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços. 

As pessoas têm de achar o que fazer enquanto esperam a morte. 
Acho legal ter uma escolha.

Eu tinha feito a minha. Ergui a garrada de vodca e dei um vasto gole.”

c. bukowski

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O nosso lugar

por Claudia Penteado


“A vida me fez de vez em quando pertencer, 
como se fosse para me dar a medida 
do que eu perco não pertencendo. 
E então eu soube: pertencer é viver.”
- clarice lispector -

_____________________________________________________________

Uma amiga confessou outro dia sua sensação de completo deslocamento no mundo. Depois que infartou, embora tenha se recuperado físicamente, não conseguiu reconectar-se à vida que levava, como se não tivesse mais direito a ela. Como se estivesse prestes a ir embora e tenha ganho uma sobrevida “de lambuja”. Passou a sentir um entorpecimento permanente e achou mais simples passar a deixar as pessoas decidirem seus próximos passos – o marido, a filha, os amigos. Ficou com a sensação de que “desencarnou” da sua própria história e busca, de alguma maneira, a reencarnação. A notícia recente de que seus exames médicos não estavam lá essas coisas piorou a sensação de vulnerabilidade. De repente, via-se postergando planos, pensando: “e se eu não estiver viva até lá?”…

Isso me fez pensar que os sentimentos da minha amiga “desencarnada” em vida são, na verdade, os mesmos de muitos de nós em pleno século XXI: uma espécie de não pertencimento e a sensação de constante vulnerabilidade. Ou ainda: angústia, por acreditar que é preciso pertencer a algum grupo ou lugar a qualquer preço, sob pena de flutuar no limbo. Quem já se sentiu ou tem se sentido assim ultimamente?

Em uma entrevista recente, o filósofo Zygmunt Bauman afirmou que hoje em dia trocamos de identidade várias vezes ao longo de uma existência e que isso pode ser extremamente angustiante. Antigamente, vivia-se “uma vida só”: nascia-se, fazia-se uma única escolha profissional, trocava-se talvez de esposa/marido uma vez no máximo (ou não), envelhecia-se com tranquilidade e calma, o tempo passava de uma forma que talvez pareça até monótona, mas o fato é que havia a possibilidade e a perspectiva de se viver uma vida só. Uma vida inteira sem grandes transformações ou mudanças de rumo. Sem que isso causasse, necessariamente, frustração ou angústia.

O mundo de hoje nos mostra, o tempo todo, que há muitas vidas a serem vividas. A vida virtual, claro, é uma delas. E há várias vidas virtuais possíveis, dependendo das rede sociais em que se está. Em algumas você brinca de intelectual, em outras é mais pessoal e sedutor, em outras inventa um personagem inteiramente novo ou pode viver, por exemplo, taras inconfessáveis. Se por um lado é divertido viver tantas personas, por outro a sensação de não pertencer a lugar algum de verdade pode gerar uma eterna insatisfação. Na vida virtual, mais do que na real, há uma sensação de que é preciso fazer, o tempo todo, algo novo. Algo que surpreenda, mostre o quanto se é interessante, bacana, alguém que vale a pena “seguir” ou ser amiga. Que foto incrivelmente bela ou sexy vou inserir na minha linha do tempo? Que frase vou “postar” hoje nas redes sociais para angariar elogios e comentários? Que foto ou piada fará as pessoas me acharem incrivelmente engraçado? Que estilo de vida vou defender?

Na vida real, mais angústias. Dependendo da sua profissão, se você não tem um smartphone, não responde seus e-mails rapidamente, não tem uma conta no Facebook, nunca leu um livro digital ou não tem intimidade com um iPad, torna-se uma alma penada e sofre olhares de pena de seus pares. O estereótipo do “velhinho antenado”, que mexe com tecnologia com o pé nas costas – sim, ele existe, me garantem -, é amplamente explorado pela mídia e deixa um monte de gente… no buraco negro do não pertencimento. E que profissão vou escolher depois dos 40, já que virou tendência tornar-se escritor, músico, intelectual, consutor, terapeuta ou iogue na segunda metade da existência, depois de comprovado que todas as escolhas foram equivocadas?

E, repare, as mudanças de profissão podem acontecer várias vezes ao longo da vida pós-moderna. Apurando uma matéria sobre aprimoramento profissional, ouvi de diretores de Recursos Humanos de grandes empresas que os “jovens de hoje” têm imensa facilidade de mudar de profissão repentinamente, se algo lhes parecer mais atraente. Mantê-los nas empresas é um desafio imenso e o que seduz não é só dinheiro ou um bom “plano de carreira”: é uma espécie de estado contínuo de excitação e empolgação no ambiente de trabalho. Sem tesão não há solução, já dizia Roberto Freire. Nunca isso foi mais verdadeiro. Isso deve gerar um bocado de ansiedade. Chego a ficar cansada de pensar nisso.

E quando é o momento certo de separar do parceiro para viver uma outra história afetiva, que tenha mais a ver com a pessoa em que me transformei? Com quem viverei novos sonhos ou quem sabe velhos sonhos de juventude que ficaram escondidos e empoeirados e finalmente me permito viver? Posso ter outro filho perto dos 60 anos ou adotar um bebê…E, porque não, passar uns meses na Índia ou fazer o caminho de Santiago para rever toda a minha existência. Sabe-se lá que outras tantas opções isso trará ao meu destino? A impermanência virou um estado natural. A grama do(s) vizinho(s) – que nunca foram tantos – jamais esteve mais verde do que agora. Impossível pensar em continuar simplesmente fazendo a mesma coisa, todos os dias, e ser feliz com isso. Isso nos torna monótonos, sem perspectivas, sem graça, sem brilho. É preciso se reinventar, inovar, incorporar o bordão pós-moderno.

É claro que ter tantas opções diante de nós e mudar pode ser saudável, divertido e maravilhoso. Esta não é uma apologia à não mudança! Meu ponto é que a cobrança social pela mudança pode angustiar e frustrar, quando não nos sentimos verdadeiramente conectados às nossas escolhas. Quando não mudamos porque realmente queremos. Não mudar é também uma escolha e não deve ser um fator condenatório ou sepultador. Não é fácil, no mundo de hoje, conquistar o direito de não mudar o tempo todo e ser feliz com isso.

Demanda muita honestidade consigo mesmo escolher a própria vida – independente do que corre ao redor – e sentir-se confortável nela, como numa cadeira mole do Sergio Rodrigues.

Ultimamente, eu realmente acredito que no lugar de pensar tanto e olhar excessivamente em volta, o que necessitamos é simplesmente mergulhar no doce e autêntico sabor das nossas escolhas, olhando para dentro, e não para fora. Pensando menos no futuro e mais no presente – um clichê que nos libera, como descreve Lispector numa crônica, da sensação de estar no deserto, sôfrego, bebendo os últimos goles de água de um cantil. Porque o mundo de hoje pode, mesmo, nos dar esta sensação.

___________________________
Texto publicado originalmente
na Revista Época

domingo, 24 de junho de 2012

É NAMORO OU AMIZADE?


por Martha Medeiros

Coragem, confesse: você assistia ao programa "Em nome do amor" do Silvio Santos, domingos à tarde. É aquele programa onde garotas e rapazes que nunca se viram mais gordos tiram uns aos outros para dançar ao som de Julio Iglesias, enquanto aproveitam para trocar três palavras. No final da música, Silvio pergunta para cada casal: é namoro ou amizade? Se a menina responder amizade, volta para o banco de reservas. Se responder namoro, ganha um buquê de flores e sai de mãos dadas com um amor novinho em folha. Já pensou que paraíso se fosse fácil assim? 



Você está no bar da faculdade tomando um suco quando surge aquele colega que é um gato e que só faz uma cadeira nas quintas. Ele vem na sua direção e sorri. É seu dia de sorte. Está cada vez mais perto. Finalmente chega e lhe entrega um minidicionário Aurélio. "Você deixou cair ali fora". Antes que você consiga dizer obrigada, ele dá meia-volta, mas não consegue dar um passo. Silvio Santos está de microfone na mão interrompendo a fuga: é namoro ou amizade? "Namoro", responde você. A platéia do bar aplaude, você segura a mão do cara e não larga nunca mais. 

Você está de bobeira no posto de gasolina, sábado à noite, encostado num Kadett. Sua cerveja está ficando quente e você não tem mais um tostão no bolso. Olha para o relógio: hora de saltar fora. Nisso surge uma clone da Cameron Diaz e pede licença para sair com o carro. Você desencosta. "Está bem cuidado, princesa", diz naquele seu jeito cafajeste. Ela entra, tenta arrancar mas quase atropela Silvio Santos, que surge não se sabe de onde, perguntando à queima-roupa: é namoro ou amizade? "Namoro", responde você entrando no Kadett da loira. Arranjou uma carona e uma paixão. 

Você é divorciada e não é uma ninfeta: quase já esqueceu para que serve um homem. Está no cinema sozinha, pra variar. Nisso entra um cinquentão boa pinta, sem aliança no dedo. Senta quase ao seu lado, apenas uma poltrona os separam. As luzes ainda estão acesas e na fila da frente três retardadas não páram de rir e de fazer barulho com o papel de bala. O bacana olha pra você e diz: "Espero que, quando o filme iniciar, esse frege termine". Ele fala frege, como você. Feitos um para o outro. Nisso Silvio Santos materializa-se na poltrona do meio e lasca: "É namoro ou amizade?" Você agarra o microfone: "Namoro". Silvio sai de fininho, você pula para a cadeira do lado e assiste todo o filme com a cabecinha apoiada no ombro do tipão. 

Ou você põe a imaginação pra funcionar ou se inscreve no Em nome do amor. Mas vai ter que agüentar o Julio Iglesias.

sábado, 23 de junho de 2012

Agora sei: sou só.



















''Minha verdade espantada é que 
eu sempre estive só de ti e não sabia. 
Agora sei: sou só. 
Eu e minha liberdade que não sei usar. 
Grande responsabilidade de solidão. 
Quem não é perdido não conhece 
a liberdade e não a ama. 
Quanto a mim, assumo minha solidão…”
Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo .

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Humana-mente



"Conheça todas as teorias, 
domine todas as técnicas, 
mas ao tocar uma alma humana, 
seja apenas outra alma humana."
Carl G. Jung

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Frêmito do meu corpo a procurar-te





















Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,


Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!


E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...


E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...
florbela espanca

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Gaiola
















- O que teme, senhora? - perguntou ele.
- Uma gaiola - disse ela. 
- Ficar atrás de grades, até que o hábito 
e a velhice as aceitem e todas as oportunidades 
de realizar grandes feitos estejam além 
de qualquer lembrança ou desejo." 
_____________________________________________________________

[Tolkien in O Senhor dos Anéis,
O Retorno do Rei - Pág. 45
(O Retorno da companhia cinzenta.)]

terça-feira, 19 de junho de 2012

Quanto me amaste mais do que te amei ?


















"Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua", 
pensou então com auxílio da saudade. 
"Dei-te o nome de José para te dar um nome 
que te servisse ao mesmo tempo de alma. 
E tu - como saber jamais que nome me deste? 
Quanto me amaste mais do que te amei", refletiu curioso.


"Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, 
eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente", 
pensou o homem sorrindo com carinho, livre agora de se lembrar à vontade.


"Lembro-me de ti quando eras pequeno", pensou divertido, 
"tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, 
e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. 
Mas desde então, já começavas a ser todos os dias um cachorro 
que se podia abandonar. 


Enquanto isso, nossas brincadeiras tornavam-se perigosas de tanta compreensão", 
lembrou-se o homem satisfeito, "tu terminava me mordendo e rosnando, 
eu terminava jogando um livro sobre ti e rindo. Mas quem sabe 
o que já significava aquele meu riso sem vontade. 
Eras todos os dias um cão que se podia abandonar."
____________________________________________
Clarice Lispector in
"O Crime Do Professor De Matemática."
Na íntegra AQUI.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O AMOR ANTIGO


por Carlos Drummond de Andrade

















O amor antigo vive de si mesmo, 
não de cultivo alheio ou de presença. 
Nada exige nem pede. Nada espera, 
mas do destino vão nega a sentença. 


O amor antigo tem raízes fundas, 
feitas de sofrimento e de beleza. 
Por aquelas mergulha no infinito, 
e por estas suplanta a natureza. 


Se em toda a parte o tempo desmorona 
aquilo que foi grande e deslumbrante, 
o antigo amor, porém, nunca fenece 
e a cada dia surge mais amante. 


Mais ardente, mas pobre de esperança. 
Mais triste? Não. Ele venceu a dor, 
e resplandece no seu canto obscuro, 
tanto mais velho quanto mais amor. 
_______________________________________
Carlos Drummond de Andrade
in "Amar se Aprende Amando"

domingo, 17 de junho de 2012

Para Viver Um Grande Amor


por Vinicius de Moraes


Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...


Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?


Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Coragem


por Martha Medeiros
via Anadir Insaurralde

"A pior coisa do mundo 
é a pessoa não ter coragem na vida.” 


Pincei essa frase do relato de uma moça chamada Florescelia, nascida no Ceará e que passou (e vem passando) poucas e boas: a morte da mãe quando tinha dois anos, uma madrasta cruel, uma gravidez prematura, a perda do único homem que amou, uma vida sem porto fixo, sem emprego fixo, mas sonhos diversos, que lhe servem de sustentação.

Ela segue em frente porque tem o combustível que necessitamos para trilhar o longo caminho desde o nascimento até a morte. Coragem.

Quando eu era pequena, achava que coragem era o sentimento que designava o ímpeto de fazer coisas perigosas, e por perigoso eu entendia, por exemplo, andar de tobogã, aquela rampa alta e ondulada em que a gente descia sentada sobre um saco de algodão ou coisa parecida.

Por volta dos nove anos, decidi descer o tobogã, mas na hora H, amarelei. Faltou coragem. Assim como faltou também no dia em que meus pais resolveram ir até a Ilha dos Lobos, em Torres, num barco de pescador. No momento de subir no barco, desisti. Foram meu pai, minha mãe, meu irmão, e eu retornei sozinha, caminhando pela praia, até a casa da vó.

Muita coragem me faltou na infância: até para colar durante as provas eu ficava nervosa. Mentir para pai e mãe, nem pensar. Ir de bicicleta até ruas muito distantes de casa, não me atrevia. Travada desse jeito, desconfiava que meu futuro seria bem diferente do das minhas amigas.

Até que cresci e segui medrosa para andar de helicóptero, escalar vulcões, descer corredeiras d’água. No entanto, aos poucos fui descobrindo que mais importante do que ter coragem para aventuras de fim de semana, era ter coragem para aventuras mais definitivas, como a de mudar o rumo da minha vida se preciso fosse. Enfrentar helicópteros, vulcões, corredeiras e tobogãs exige apenas que tenhamos um bom relacionamento com a adrenalina.

Coragem, mesmo, é preciso para terminar um relacionamento, trocar de profissão, abandonar um país que não atende nossos anseios, dizer não para propostas lucrativas porém vampirescas, optar por um caminho diferente do da boiada, confiar mais na intuição do que em estatísticas, arriscar-se a decepções para conhecer o que existe do outro lado da vida convencional. E, principalmente, coragem para enfrentar a própria solidão e descobrir o quanto ela fortalece o ser humano.

Não subi no barco quando criança – e não gosto de barcos até hoje. Vi minha família sair em expedição pelo mar e voltei sozinha pela praia, uma criança ainda, caminhando em meio ao povo, acreditando que era medrosa. Mas o que parecia medo era a coragem me dando as boas-vindas, me acompanhando naquele recuo solitário, quando aprendi que toda escolha requer ousadia.

A idade de ser feliz


















Existe somente uma idade para a gente ser feliz, 
somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível 
sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los 
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos. 


Uma só idade para a gente se encantar com a vida 
e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade 
sem medo nem culpa de sentir prazer. 


Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida 
à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores 
e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores 
sem preconceito nem pudor. 


Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio 
é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição 
de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso. 


Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE 
e tem a duração do instante que passa.

mário quintana

sábado, 16 de junho de 2012

Mas Você Só Quer Saber de Amor


por Henrique Miné

Eu só queria escrever. Olhei toda aquela criançada na escola onde trabalho, e eles estavam subindo nas coisas, correndo uma atrás da outra, rolando no chão, gritando músicas de duplo sentido como se fossem muito rebeldes, caçando sarna pra se coçar. Alguém deu um ponta pé em alguém, vieram me chamar.

“Por que você apanhou?”

“Porque eu roubei o lanche dele, professor!”

“Então devia ter apanhado mais por não me dar um pedaço!”

No próximo minuto, eles já eram amigos de novo, e dividiam outro lanche.

E eu fico olhando a minha colega de trabalho, minha idade, perspectivas completamente diferentes, ela não sai no horário de trabalho pra fumar um cigarro, não gostou quando deixei a quadra aberta pra eles jogarem bola, não fala palavrões para eles, muito menos chama por apelidos.

No entanto, me consola saber que, no fim, vamos acabar os dois na mesma merda. Eu queria escrever e, enquanto fingia que fazia alguma coisa, lamentava o fato de não ter um papel e uma caneta, lápis, que seja, por perto. O sono me consumia, o tempo não passava e eu só queria dar o fora dali e, quem sabe, comprar uma cerveja no boteco ao lado. “Olha o professor pinguço” eles diriam, que merda de exemplo eu sou.

Seja como for, tomei a cerveja depois, aliás, tomei as cervejas, porque o sol estava forte e eu não queria chegar em casa. No caminho, pensava em escrever, ainda tenho meus amores, ainda tenho minhas revoltas, mas no momento, só tinha uma ligeira embriaguez e um puta sentimento de impotência. Os carros passavam sempre apressados, alguns cachorros vadios esfregavam nas caras das pessoas o que é viver, elas ignoravam e continuavam pensando em ganhar ou gastar dinheiro, respirando fumaça, seguindo as leis, assistindo noticiários e não falando palavrões para crianças, as mesmas que, esses dias, me ensinaram como se faz filhos.

“É só botar o pau pra fora e mandar pra dentro, professor!”

No meio de tudo isso, eu. Meio bêbado a uma e meia da tarde de uma quinta-feira em uma avenida movimentada e com cara de cu. Parei na calçada pra procurar um cigarro, ou uma bala, nem lembro mais, na minha bolsa, não achei, um cara trombou em mim e ficou resmungando. Mais velho, do tipo que sonha em conseguir uma bosta de vida medíocre de classe média, e, enquanto não consegue, fica andando com camisas listradas de R$39,90 que tentam imitar as de R$399,90, com desconto. Fica ridículo, mas pelo menos ele tem um objetivo.

“Calçada não é lugar de ficar parado!”

Olhei pra trás, ele me mostrou o dedo do meio.

Continuei meu caminho meio cambaleante, sentei num ponto de ônibus para procurar o tal cigarro (ou bala, vai saber) e então vi um vira-lata parado no meio da calçada, assim como eu, e ele nem parecia do tipo fumante ou que gosta de bala, apenas estava ali, observando as pessoas com um olhar curioso, tentando entender onde diabos aquele monte de gente ridiculamente vestida da mesma forma ia tão apressado.

Ninguém mostrava o dedo pra ele.

_______________________
Extraído do excelente blog 
do Henrique Miné

Seriíssimo









Falando sério (...)
É que eu tenho cicatrizes
que a vida fez.
roberto carlos

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Caixa de arrependimentos



Toda vez que eu reabro minha caixa de memórias, sinto externar um sentimento amargo de dívida com o passado. Repasso os dedos cuidadosamente em cada envelope endereçado à pessoa que fui, prendo a respiração ao ver que as datas já estão distantes o suficiente para emergirem no breu do esquecimento. Engraçado perceber uma luz sempre irradiando lá de dentro, do fundo – da alma? – bradando por um ponto final.

Nunca gostei muito de chegar ao final. A verdadeira aventura está em percorrer o caminho... Pelo menos costumava ser assim. Já se passou tanto tempo? Preferia deixar a última página das minhas histórias descompassadas. Cansei de escrever livros em branco. Eu acredito em fases, entende? Boas e ruins. Depois de tantas maremotos, não esperava perder todos meus contos, meus personagens. Que nem eram meus.

Egoísta ao não compartilhar o desfecho de tudo. E hoje o enredo cobra um final – feliz? – e atormenta-me com os temíveis “e se?”. Reviver histórias tão antigas hoje não é uma opção. Nenhum dos integrantes atuaria novamente no mesmo cenário. Busco o quê? Voltar a ser o que era? Deixar tudo como está? Ou abro o livro do destino e começo... Bem... De onde começo? Do fim? Faço o inverso. Compreendo o início, faço do ponto de partida o meu próprio encerramento.

____________________________
Publicado originalmente no blog da

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Todos no mesmo barco





Seja gentil, 
pois todos que você 
encontrar no caminho 
também estão enfrentando 
duras batalhas.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Sem chance de ajuda


Há um lugar no coração
 que nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos
melhores momentos
nos melhores tempos
nós saberemos

nós saberemos
mais que nunca

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

nós iremos esperar
esperar

nesse lugar.
Bukowski

_____________________________________
Poema publicado originalmente no livro
“Essa loucura roubada que não desejo
a ninguém a não ser a mim mesmo amém”

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Os maridos



por Amilcar Bettega

"E lá vão eles, firmes, cumprir o supremo destino de reinaugurar o dia, de pôr outra vez o mundo em funcionamento. Vão varonis, encher de energia o ventre das coisas, construir os fatos, agir sobre o tempo, vão rígidos e convictos, mesmo que o sol, irmão na força de todas as manhãs, hoje pareça ter se atrasado de propósito, deixando os maridos sob esse céu anêmico, de um cinza amarelado e pegajoso. Faz muito calor e vai chover.

Eles vão dentro dos carros, dos ternos e das gravatas. Vão nos ônibus, no metrô, e vão também a pé, muito apressados todos eles, já com manchas de suor nas costas e sob as axilas (os maridos são homens de muitos líquidos). Carregam as pastas, os papéis, os contratos, os relatórios, ou ainda prosaicas sacolinhas de supermercado e marmitas surradas. Lá vão eles nessa manhã abafada de dezembro. Mas vão como se fossem contra o vento gelado de agosto ou sob a luz excessiva de abril. Os maridos vão nessa manhã como em todas as manhãs do mundo. Têm o gosto do café e do sono na boca, talvez do álcool da noite anterior, da comida pesada, de algum sexo às pressas. Lá vão eles, incumbidos da divina missão de fazer as coisas, vão machos, saindo das suas casas como quem sai para a guerra.

Os portões dos edifícios e das garagens os despejam na rua como touros bravios lançados no centro da arena. Mas também são peixes, um cardume em febril trajeto, que vão em fila, lado a lado, ombro a ombro, vão fazer os negócios, vão discutir os preços, vão comprar e vender, os maridos.

E vão também muitas mulheres-marido, vão sérias e rígidas, equilibristas de salto alto, vão orgulhosas da força que as iguala, lá vão elas senhoras de suas conquistas, despejando potência na máquina do dia.

Enquanto isso vem crescendo a manhã, morna e tensa, como se tivesse febre. O céu é baixo e não há nenhuma dúvida que a chuva vai estourar em pouco tempo. Os maridos homens e maridos mulheres já ouviram a previsão no rádio bem cedo ou leram no jornal, bem cedo também. Os maridos leem o jornal de manhã e escutam as notícias no rádio ou conversam com outros maridos para saber as coisas. A chuva vai estourar a manhã em pouco tempo.

Compenetrados, conscientes dos seus músculos e inteligências, os maridos fazem o trabalho e a manhã fica bojuda. Ela cresce em ruído, em nervosismo, e cresce também o calor. Os maridos vão suados, incômodos, mas decididos. Muitos já chegaram aos escritórios e dão ordens e falam ao telefone e fecham negócios. Outros recebem as ordens e as repassam, no feliz exercício da hierarquia. Correm, esses austeros milicianos, despacham, assinam, e sentem, com uma sincera e infantil felicidade, o motor do trabalho ganhando aceleração.

Mas muitos, muitos deles ainda estão a caminho. Estão presos no trânsito ou mesmo nas calçadas, caminhando, correndo, porque a chuva não demora e estamos todos atrasados. Nos semáforos fechados, ao volante, eles limpam o suor da testa, dão uma olhadela na primeira página do jornal que descansa no banco do carona, e arrancam. E param logo em seguida porque o tráfego é lento, um congestionamento — dá no rádio — de oito quilômetros para o trânsito da cidade. Então os maridos sacam seus celulares. E os maridos que vão na rua cobrem a cabeça com suas pastas porque os primeiros pingos da chuva começam a cair.

A chuva desaba e o céu encosta na terra. A manhã vira noite outra vez e os automóveis têm de acender os faróis. Também as luzes da rua se acendem, e olhar contra o poste alto da iluminação é ver a chuva multiplicada dez vezes, talvez a sua verdadeira cifra.

A rua é um rio. Uma água turva, da cor do céu, corre sem direção definida, carreando os detritos que dormiam nas sarjetas, no fundo dos becos, sob a cabeceira das pontes ou agarrados à pele suja do asfalto. Emerge e boia o lixo da cidade por entre os carros, que também são arrastados uns contra os outros e que, soltos assim no movimento das águas, têm a tranquila aparência das coisas mortas. A chuva é cada vez mais forte e reduz o campo de visão a uns poucos metros. Aqueles maridos que estavam nas calçadas agora lutam para se manter na superfície da água, como se a força da chuva sobre suas cabeças os empurrasse para baixo. Uns nadam, outros apenas se debatem, outros são arrastados pela água, e várias pastas abertas vomitam seus papéis na correnteza. Lá vão os papéis, e as pastas atrás deles, com suas bocas abertas numa desesperada e inútil tentativa de resgatar seus valores.

Cresce a água também dentro dos carros, rompendo à força a segurança das calafetagens das portas. Primeiro é uma lâmina líquida, uma língua que lambe o piso dos automóveis, depois vai crescendo e atingindo os bancos de couro, infiltrando-se nos mecanismos delicados dos painéis digitais. Então já passamos do caos. O desespero está nos rostos dos maridos que se debatem tentando livrar-se dos cintos de segurança. Eles socam os vidros mas sabem que não adiantaria abri-los, o que apenas aceleraria a entrada da água. São lógicos os maridos, mesmo no desespero. Lá dentro dos carros os maridos já têm a água na altura do queixo. Suas cabeças encostam no teto e eles são forçados a virar o rosto de lado para tentar buscar com narizes ansiosos a última camada de ar que se espreme contra o teto do automóvel. E quando a água elimina também essa derradeira lâmina de ar, os maridos retornam para o vidro lateral e tremem sob a água, colam seus rostos e suas bocas no vidro, por onde deslizam as borbulhas de ar que eles soltam. E novamente eles têm aspecto de peixes, que morrem em seus próprios aquários. Os braços já estão mortos, pois eles não batem mais nos vidros, apenas nos forçam com a cabeça, e principalmente com a boca, uma boca arroxeada, boca de peixe, grudada no vidro.

Muitos dos maridos apanhados na rua já boiam de bruços na correnteza, entre sacos de lixo, verduras podres e montes de fezes que se levantaram dos valões. Os mais fortes ainda tentam nadar, mas seus braços são quase inúteis contra o lodo, o capim e pedaços de panos que se enroscam neles.

Alguns que estavam dentro dos carros-aquário vão conseguindo sair, também na última das suas forças, para morrer na superfície. Ainda que torrencial, a chuva já não aumenta. Martela de forma constante, água sobre água, porque a cidade já não existe. Tudo é um imenso rio marrom e a cidade ficou embaixo. Acima, está o lixo, a água escura de lama, os corpos emborcados dos maridos-peixe.
***

É só depois que a chuva arrefece. É só depois que ela se transforma nessa lenta garoa. É quando se pode ver melhor.

E varrendo com os olhos toda a superfície da água, não se percebe um só topo de edifício ou torre de televisão, nada a não ser a água barrenta, o lixo e os corpos dos maridos boiando, já um pouco inchados. O céu vai lentamente clareando outra vez, ainda opaco, cinza, como que refletindo a tonalidade suja da água, mas um céu novo.

E ao longe, como que saindo de trás da linha do horizonte, uma pequena mancha vem crescendo.

Vem se aproximando com lentidão excessiva, entre o lixo e os corpos. É um bote, um fragilíssimo bote de madeira que seu condutor traz com remadas esparsas. Vem de pé, uma figura magra, que passa com dificuldade o remo de um lado para o outro a fim de corrigir a rota.

Tem um lenço negro na cabeça e é uma mulher. Ela tem o olhar concentrado em cada corpo que passa roçando o casco do bote. Às vezes segura um deles pela camisa, vira-se com dificuldade e quase desequilibra-se, puxa pelo braço o corpo que a correnteza vai carregando, puxa-o para bem próximo do barco, segura-o pelos cabelos e ergue seu rosto. Então, com um suspiro, devolve o corpo à correnteza e fica olhando ele se afastar, às vezes lento, às vezes girando em torno de um eixo imaginário que lhe cruza o umbigo, às vezes sofrendo os ligeiros movimentos e acelerações de um redemoinho. Ela olha o corpo se afastar e logo retoma sua trajetória. É assim que ela vem, vem no seu barco, passa por inúmeros corpos, detém-se num e noutro, e vem.

Lá vem a mulher, vem sóbria e triste, vem para buscar alguma coisa que está perdida. E que ela busca em cada corpo que passa boiando ao lado do seu bote. De repente ela se agita no barco, enxerga a alguns metros um corpo que lhe é familiar demais. Aqueles braços, aquelas costas, aqueles cabelos espalhados em torno da cabeça como uma medusa negra que se move ou se deixa mover no músculo das águas. Ela rema com desespero e quase vira o barco na ânsia de chegar até ele. Não pode deixar passar aquele corpo. Rema num esforço máximo até que o alcança e consegue puxá-lo pelo tornozelo, quando a correnteza já ia levando-o para sempre. Ela o traz para o lado do barco e vira o corpo e vê que, sim, é seu marido. Sem nenhum instante de raciocínio ou mesmo de emoção, puro instinto, a mulher segura-o pelas axilas e começa a puxá-lo para dentro do barco. É uma operação difícil e perigosa, e que demora bastante. O corpo inchado pesa mais do que o normalmente pesado corpo do marido e ela é obrigada a descer na água para empurrar suas pernas para cima. Depois volta a subir no barco, desvira o corpo do seu marido e olha para os lábios roxos, a boca escura, de onde pende um ramo de capim embarrado. Ela limpa seus cabelos do excesso de lama, livra-o da camisa que é um lodo só e vê que ele tem um ferimento na altura do baço, um rasgo escuro que, quase imperceptivelmente, se abre e se fecha.

Ela beija sua boca e volta a apanhar o remo. Põe-se de pé na popa do barco. Que lentamente vai."

________________________________________________________
Publicado originalmente no blog da Amandha!
Sobre a autor: Amilcar Bettega é escritor, autor de "O Voo da Trapezista". 
O conto "Os Maridos" ainda não tem data para publicação em livro.

domingo, 10 de junho de 2012

Penosa Servidão













É válido procurarmos conhecer 
a que má e penosa servidão nos sujeitamos 
quando nos abandonamos ao poder alternado 
dos prazeres e das dores, esses dois amos 
tão caprichosos quanto tirânicos.
- sêneca -

Tudo














Eu não tinha muito a oferecer, eu sei. 
Mas tudo o que eu tinha, era seu.
cfa

sábado, 9 de junho de 2012

Suposições











A vida não é mais estranha do que supomos.
Ela é mais estranha do que somos capazes de supor.

rubem fonseca

Como faz ?


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Desapego


por Monja Coen Sensei
















"Foi um erro ter insistido em ficar na direção do templo. 
A insistência fez com que eu conhecesse o lado sombrio de muita gente. 
Foram muitas decepções, desgastes e tristezas em alguns momentos. 
Demorei para me desapegar. É um equilíbrio sutil entender 
quando é hora de cuidar do que plantamos e quando desapegar.


Depois que saí de lá, um grupo de praticantes me seguiu, 
e surgiram inúmeras oportunidades de transmitir o budismo. 
Não há nada fixo. Não dá para segurar um cargo, uma posição. 
Acho que essa é a lição mais bonita. 
Quando você desiste de uma ideia fixa, você se abre para o Universo. 
Uma expressão que temos no budismo é: 


“Cai sete vezes, levanta oito. O chão onde você cai 
é o chão que lhe sustenta de pé. Não reclame da queda”. 


Isso é o que aprendi. Hoje enxergo a saí­da do templo 
como uma oportunidade para lidar com os ensinamentos de Buda. 
Estava muito fechada na comunidade japonesa. Graças a tudo isso, 
tive a chance de levar o budismo para o Brasil inteiro."
_______________
fonte: Revista Vida Simples

Ensaio sobre a dádiva

Também conhecido como Ensaio sobre o "dom", (no original francês: Essai sur le don. Forme et raison de l'échange dans les societés archaiques - “Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas” é um livro de Marcel Mauss publicado pela primeira vez em 1925 que versa sobre os métodos de troca nas sociedades tidas como primitivas. É reconhecido como o estudo de caráter etnográfico, antropológico e sociológico mais antigo e importante sobre a reciprocidade, o intercâmbio e a origem antropológica do contrato.

Os aspectos históricos do que hoje entendemos como direito das obrigações são também abordados nesse livro inclusive quanto ao aspecto (diacrônico) da origem da distinção, nas sociedades semíticas, grega e romana, entre a obrigação e a prestação não gratuita e a dádiva. Aquisições recentes da civilização, segundo ele, com possível origem em fase anterior sem a mentalidade fria e calculista com dádivas trocadas onde se fundem pessoas e coisas tal com pode ser deduzido em vestígios do direito romano ou nítidamente nas leis da Germânia ou Código de Manu da Índia antiga.

Esse ensaio de Mauss discorre acerca do modo como o comércio de objetos entre os grupos constrói relacionamentos entre eles. Sustentou que ao doar ou dar um objeto (presente), o doador cria uma obrigação face ao receptor que fica de lhe devolver o presente.

O resultado de tal conjunto de trocas que ocorrem entre indivíduos de um grupo e entre diferentes grupos corresponde a uma das primeiras formas de economia social e da solidariedade social que une os grupos humanos. As doações recíprocas estabelecem relações de fortes alianças, hospitalidade, proteção e assistência mútua.

O ensaio está construído com uma ampla gama de estudos etnográficos de distintos grupos humanos. Mauss aproveitou a experiência e os dados dos estudos Bronislaw Malinowski o intercâmbio do kula registrado entre habitantes das Ilhas Trobriand; a instituição do Potlatch dos índios da na costa do Pacífico no Noroeste da América do Norte e outros estudos etnográficos de povos da Polinésia que mostram a prática generalizada de troca de presentes em sociedades não - européias. Analisa simultaneamente a história da Índia, e sugere que os traços de troca de presentes também podem ser encontradas nas sociedades mais desenvolvidas. Nas conclusões do livro de Marcel Mauss sugere que as sociedades seculares industrializadas, poderiam se beneficiar ao reconhecer a prática das dádivas e doações (troca de presentes).

Para Levi-Strauss autor do ensaio "Introdução à obra de Marcel Mauss” o “Ensaio sobre a dádiva” é a obra prima de Mauss. Foi nesse texto, segundo ele, que Mauss introduziu e impôs a noção de fato social, que apresenta-se com um caráter tridimensional, fazendo coincidir a dimensão propriamente sociológico, com seus múltiplos aspectos sincrônicos; a dimensão histórica ou diacrônica; e, enfim, a dimensão físico-psicológica. O mérito de Mauss, ainda segundo esse autor foi, pela primeira vez no pensamento etnológico, transcender a experiência empírica – da descrição e comparação erudita ou anedótica – para formas comparáveis entre si por seu caráter comum em modalidades que podem analisadas e classificadas inaugurando uma nova era das ciência sociais.

(fonte: Famigerada WIKIPÉDIA)



1) No Blog Sociologia Hoje a Professora Nádia Aguiar faz um resumo breve da obra 'Ensaio sobre a dádiva', de Marcel Mauss.

2) AQUI um artigo do professor Marcos Lanna, da Universidade Federal do Paraná, sobre a mesma obra.

3) AQUI o download da obra.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ser é ousar ser


Prólogo do livro Demian, 
do escritor alemão Hermann Hesse
_____________________________________

"Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja um homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. 

Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.


Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o sentem e, por senti-lo, morrem mais aliviados(...). Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.

A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um — resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial — tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.
_____________________________________

Na integra AQUI.

Drummoniando

Os Ombros Suportam O Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, 
as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Os versos acima foram publicados originalmente no livro "Sentimento do Mundo", Irmãos Pongetti - Rio de Janeiro, 1940. Veja que isso foi publicado 70 anos atrás e já podemos ver os mesmos conflitos do homem hodierno.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O poder da Validação


por Stephen Kanitz:

"Todo mundo é inseguro, sem exceção. Os super-confiantes simplesmente disfarçam melhor. Não escapam pais, professores, chefes nem colegas de trabalho. Afinal, ninguém é de ferro. Paulo Autran tremia nas bases nos primeiros minutos de cada apresentação, mesmo quando a peça já havia sido encenada 500 vezes. Só depois da primeira risada, da primeira reação do público, é que o ator relaxava e partia tranqüilo para o resto do espetáculo. Eu, para ser absolutamente sincero, fico inseguro a cada novo artigo que escrevo, e corro desesperado para ver os primeiros e-mails que chegam.

Insegurança é o problema humano número 1. O mundo seria muito menos neurótico, louco e agitado se fôssemos todos um pouco menos inseguros. Trabalharíamos menos, curtiríamos mais a vida, levaríamos a vida mais na esportiva. Mas como reduzir esta insegurança?

Alguns acreditam que estudando mais, ganhando mais, trabalhando mais resolveriam o problema. Ledo engano, por uma simples razão: segurança não depende da gente, depende dos outros. Está totalmente fora do nosso controle. Por isso segurança nunca é conquistada definitivamente, ela é sempre temporária, efêmera.

Segurança depende de um processo que chamo de "validação", embora para os estatísticos o significado seja outro. Validação estatística significa certificar-se de que um dado ou informação é verdadeiro, mas eu uso esse termo para seres humanos. Validar alguém seria confirmar que essa pessoa existe, que ela é real, verdadeira, que ela tem valor.

"Todos nós precisamos ser validados 
pelos outros, constantemente. "

Alguém tem de dizer que você é bonito ou bonita, por mais bonito ou bonita que você seja. O autoconhecimento, tão decantado por filósofos, não resolve o problema. Ninguém pode autovalidar-se, por definição.

Você sempre será um ninguém, a não ser que outros o validem como alguém. Validar o outro significa confirmá-lo, como dizer: "Você tem significado para mim". Validar é o que um namorado ou namorada faz quando lhe diz: "Gosto de você pelo que você é". Quem cunhou a frase "Por trás de um grande homem existe uma grande mulher" (e vice-versa) provavelmente estava pensando nesse poder de validação que só uma companheira amorosa e presente no dia-a-dia poderá dar.

Um simples olhar, um sorriso, um singelo elogio são suficientes para você validar todo mundo. Estamos tão preocupados com a nossa própria insegurança, que não temos tempo para sair validando os outros. Estamos tão preocupados em mostrar que somos o "máximo", que esquecemos de dizer aos nossos amigos, filhos e cônjuges que o "máximo" são eles. Puxamos o saco de quem não gostamos, esquecemos de validar aqueles que admiramos.

Por falta de validação, criamos um mundo consumista, onde se valoriza o ter e não o ser. Por falta de validação, criamos um mundo onde todos querem mostrar-se, ou dominar os outros em busca de poder.

Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Mas, justamente graças à validação, elas começarão a acreditar em si mesmas e crescerão para ser o que queremos.

Se quisermos tornar o mundo menos inseguro e melhor, precisaremos treinar e exercitar uma nova competência: validar alguém todo dia. Um elogio certo, um sorriso, os parabéns na hora certa, uma salva de palmas, um beijo, um dedão para cima, um "valeu, cara, valeu".

Você já validou alguém hoje? Então comece já, por mais inseguro que você esteja.