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terça-feira, 30 de julho de 2013

O amor e a morte

"Em que momento uma flor de lótus começa 
a nascer dentro de quem amamos? De nós? 
Desde sempre, talvez seja a resposta mais correta. 
Não sabemos quando ela vai florescer carregando 
com ela aquilo que chamamos de real. Mas sabemos que vai. 
E quando ela floresce dentro do corpo que amamos, 
o que é lógico, rotineiro, deixa de fazer sentido."



por Eliane Brum

No filme A Espuma dos Dias, Colin e Chloé se casam e, logo depois, uma flor de lótus nasce no pulmão direito dela. O filme surreal de Michel Gondry não foi um sucesso nem de público, nem de crítica, e já está escorregando para fora da programação dos cinemas no Brasil. “Exagerado, pirotécnico demais” é o comentário mais frequente. Baseado no livro-cult publicado pelo francês Boris Vian em 1947, A Espuma dos Dias fala da paixão solar que fenece no casamento e na linha de montagem do capitalismo industrial. Fala de amor e de morte. E a razão pela qual não consigo me esquecer dele é a flor de lótus que desabrocha no pulmão de Chloé. Essa imagem terrível e bela da flor branca dentro do corpo de quem se ama.

Em que momento uma flor de lótus começa a nascer dentro de quem amamos? De nós? Desde sempre, talvez seja a resposta mais correta. Não sabemos quando ela vai florescer carregando com ela aquilo que chamamos de real. Mas sabemos que vai. E quando ela floresce dentro do corpo que amamos, o que é lógico, rotineiro, deixa de fazer sentido. No filme, os objetos se movem, a campainha tem pernas e sai correndo pela casa quando alguém a toca e enguias deslizam das torneiras. Isso é mais plausível para quem perde seu amor do que a enormidade do que acontece dentro de um corpo que é referência espacial na geografia cotidiana, de um corpo que às vezes é a própria casa, a única que queremos habitar.

Trabalho com o tema da morte há alguns anos e percebo que para muitos que perdem – e se começa a perder ao abrir o exame e descobrir que há uma flor de lótus em alguma parte irremovível ou com galhos longos demais – torna-se difícil viver num mundo em que os objetos são inanimados e as enguias só são vistas em filmes da National Geographic ou em pratos de restaurante japonês caro. Há um surrealismo no mundo que foi transtornado pelo advento da flor, mas que o nega, comportando-se, junto com todos os outros que por ele andam, como se não estivesse para sempre corrompido pela morte.

Nesse mundo transtornado pela flor, só haveria um cartaz possível para levar a um protesto na Paulista. Ou na Brasil. Ou na Champs-Élysées ou na Praça Taksim. “Tem uma flor de lótus no estômago do homem que eu amo”. Olho para essa mulher que acaba de descobrir que ficará só, a escuto e a imagino solitária, patética, segurando uma cartolina tosca na avenida. Nua entre 20 centavos, Copa, SUS, Renan Calheiros, Belo Monte. Nua e louca empunhando a única denúncia que todos nós faremos um dia, a denúncia tão inescapável quanto inútil da condição humana.

Quem descobre a flor de lótus no corpo de quem ama espera a cada manhã por um sinal de que o mundo de fora vai espelhar o de dentro. De que ao entrar no elevador do prédio não haverá um vizinho com seu cachorro, mas um elefante cor-de-rosa. Confrontada com a lucidez da condição humana, só é possível encontrar lógica em elefantes cor-de-rosa. Na padaria, na fila do pão, a expectativa dessa mulher é de que a moça tenha cauda de peixe, como uma sereia em terra firme, e o pãozinho francês pisque para ela da prateleira com pestanas tão longas quanto as de uma lhama. Em vez disso, nada acontece. A moça do pão é fria, quase ríspida. Ela então gagueja. Não sabe mais se pede os dois pãezinhos de sempre, porque ele gosta de pão novo, ou se pede três, por causa da flor, agora que a relação deles se tornou um triângulo. Pede dois, porque sabe que o mundo só aceitará o pedido de dois, mas sabe que está errado. E sabe que está errado porque o que não sabe é como fará quando tiver de se arrastar até a padaria para pedir um pãozinho só. Há décadas essa mulher não sabe como é pedir um pão só. 

Conheci um homem que tinha medo da flor dentro do pulmão da sua mulher. Ele não imaginava o que havia lá como uma flor, mas vou chamar assim aqui. Ele nunca pôde dizer o que era ou que forma tinha. Mas quando se deitava na cama com ela à noite, escutava a respiração da coisa ou da flor. E não podia dormir. Esgueirava-se para fora da cama e passava o restante da noite assistindo a filmes na TV da sala. Perto do amanhecer ele voltava, e talvez ela só fingisse não perceber. Ele a abraçava, como fazia havia mais de 20 anos, mas não sabia a quem pertencia o coração que batia no peito dela. Numa dessas quase manhãs em que tinha seguido esse ritual agora rotineiro, dormiu e sonhou que acordava. Abria os olhos e não havia mais ela. Só a flor ao seu lado na cama – ou o que ele não ousava representar. 

Uma mulher agarrou meu braço um dia na porta do quarto do hospital onde tratavam a flor que agora fazia fotossíntese no tórax do seu marido. “Você sabe que eu sempre me irritei porque  meu marido deixava a roupa jogada no chão do banheiro quando ia tomar banho?” Eu sei, mas não faz mal, arrisco. Eu também me irrito com o meu. Ela nem me ouviu, não estava contando que eu dissesse nada. “E agora, antes de vir para cá, eu esperava que ele fizesse isso. E quando ele fazia, eu me trancava no banheiro e chorava, porque não há nada mais lindo do que as roupas dele jogadas no chão.” Eu me acovardo, tenho pressa de ir embora. Mas ela ainda não terminou e suas mãos são garras no meu braço. “Eu sei que é ridículo, mas só penso nisso. Que ele possa voltar para casa e jogar as roupas no chão do banheiro. Você acha que eu estou ficando louca?” Eu garanti que não, eu não achava. E não achava mesmo. “Você acha que ele vai voltar para casa?”

A resposta para essa pergunta veio horas depois. Ele morreu na madrugada, como tantos. Para quem perde, as madrugadas são as mais perigosas, descobri naquele hospital. Eu a vi sentada na cama, de costas para a porta, as sacolas arrumadas, uma réstia de sol infiltrando-se pela janela. Não consegui entrar nem dizer nada. Eu só queria sair dali e correr para casa para me assegurar de que o homem que eu amo tinha largado a roupa no chão e, ao contrário de todos os outros dias, amá-lo mais por isso.

Como capturar esse momento, um segundo antes da flor desabrochar? Como perpetuar a ilusão? Ou a ignorância? Algo do que é mais belo na literatura e no cinema foi feito como gesto de captura do amor levado pela morte. Como as imagens que Agnès Varda fez do marido, o cineasta francês Jacques Demy, ao filmar a pele do homem amado e doente em Jacquot de Nantes. O homem que ela perdia, mas cuja pele esquadrinhou, cada poro para sempre ali. Imagem, impalpável, mas ali. Ou naquele que, para mim, é o melhor livro de Lya Luft, O lado fatal, em que ela transforma em poesia a dor pela morte do psicanalista Hélio Pellegrino. Ou o homem anônimo que só planta rosas, já que falamos de flores, para levar ao túmulo da mulher. Cultiva vida no seu jardim para levar a ela, numa tentativa de se rebelar a cada semana com a morte que a silenciou. Como se dissesse: eu vou dar vida a você, alguma vida, ainda que tenha de deixá-la sobre o seu túmulo. 

Volto para casa depois de assistir à Espuma dos Dias e sinto um medo irracional das flores que me rodeiam. Olho desconfiada para as orquídeas que há anos são a moldura da minha janela e que me ficam às costas enquanto escrevo. Quando a flor de lótus desabrochar em mim ou no meu amor, não digam que enlouqueci quando eu afirmar que há enguias nas torneiras ou hipopótamos voando junto com os aviões de carreira. Não há nada mais surreal do que o amor e a morte.


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Eliane Brum, 
jornalista, escritora 
e documentarista, 
escreve às segundas-feiras 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

De volta ao começo

E o menino com o brilho do sol na menina dos olhos
Sorri e estende a mão, entregando o seu coração
e eu entrego o meu coração

E eu entro na roda e canto as antigas cantigas
de amigo irmão, as canções de amanhecer, lumiar e escuridão

E é como se eu despertasse de um sonho que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse que a força esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente eu chegasse
ao fundo do fim, de volta ao começo.
- gonzaguinha -

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Infinitudes

"Mas que seja infinito enquanto dure."
- vinícius de moraes -


"Foi infinito 
enquanto durou."
- marcos daniel -







domingo, 30 de junho de 2013

Na ordem.

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois

Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois.
- mário quintana -

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O ciúme


Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume 
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia 
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme 
O ciúme lançou sua flecha preta 
E se viu ferido justo na garganta 
Quem nem alegre nem triste nem poeta 
Entre Petrolina e Juazeiro canta 
Velho Chico vens de Minas 
De onde o oculto do mistério se escondeu 
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas 
E eu sou só, eu só, eu só, eu 
Juazeiro, nem te lembras dessa tarde 
Petrolina, nem chegaste a perceber 
Mas, na voz que canta tudo ainda arde 
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê 
Tanta gente canta, tanta gente cala 
Tantas almas esticadas no curtume 
Sobre toda estrada, sobre toda sala 
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme.
- ney matogrosso -

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Voltas


 Passa o tempo e a vida passa
E eu, de alma ingênua, acredito
No sonho doce infinito
Plenitude, enlevo e graça
Que sem tortura ou revolta
Estou cantando ao luar
Vamos dar a meia-volta
Volta e meia vamos dar


Depois a estrada poeirenta

Os pés sangrando em pedrouços
E apaziguando alvoroços
A alma intranquila e sedenta
Murchessem todas as flores
A correnteza das horas
As trevas sobre as auroras
Os derradeiros amores


Recordo o passado inteiro

E as voltas que o mundo dá
Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá
E aquele ao léu do destino
Que inspirou tanto louvor
Cajueiro pequenino
Carregadinho de flor


Passa o tempo e eu fico mudo

Ontem ainda a ciranda
Vida à toa, a trova branda
Agora envolvendo tudo
O vale nativo, os combros
Várzea, montanha, leveza
Essa poeira de escombros
De que se nutre a tristeza


Velho, recordo o menino
Que resta de mim, sei lá
Cajueiro pequenino
Meu pé de jacarandá
- maria bethânia -

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Eclipse Oculto


por Caetano Veloso

Nosso amor não deu certo
Gargalhadas e lágrimas
De perto fomos quase nada
Tipo de amor que não pode 
dar certo na luz da manhã
E desperdiçamos os blues do Djavan...

Demasiadas palavras, fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
E o corpo não agia como se o coração
Tivesse antes que optar
Entre o inseto e o inseticida...

Não me queixo, eu não soube te amar
Mas não deixo de querer conquistar
Uma coisa qualquer em você
O que será?

Como nunca se mostra o outro lado da lua
Eu desejo viajar do outro lado da sua
Meu coração - galinha de leão -
Não quer mais amarrar frustação
O eclipse oculto na luz do verão...

Mas bem que nós fomos muito felizes
Só durante o prelúdio
Gargalhadas e lágrimas até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama nada pintou direito
É minha cara falar: Não sou proveito, sou pura fama....

(...)

Nada tem que dar certo, nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio, atrasado e aflito
E paramos no meio sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto ainda estará no ar...

Não quero que você fique fera comigo
Quero ser seu amor, quero ser seu amigo
Quero que tudo saia como som de Tim Maia
Sem grilos de mim, sem desespero
Sem tédio, sem fim...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Recordação

por Antonio Prata

"Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado", ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava ruim, levamos meia hora para percorrer a Faria Lima e chegar à rua dos Pinheiros, tudo no mais asséptico silêncio, aí, então, ele me encara pelo espelhinho e, como se fosse a continuação de uma longa conversa, solta essa: "Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado".

Meu espanto, contudo, não durou muito, pois ele logo emendou: "Nunca vou esquecer: 1º de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho, lá em Santos, e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás... Fazer o que, né? Se Deus quis assim...".



'Não faz sentido, pra que que a pessoa 
quer gravar as coisas que não são 
da vida dela e as coisas que são, não?'










Houve um breve silêncio, enquanto ultrapassávamos um caminhão de lixo e consegui encaixar um "Sinto muito". "Obrigado. No começo foi complicado, agora tô me acostumando. Mas sabe que que é mais difícil? Não ter foto dela." "Cê não tem nenhuma?" "Não, tenho foto, sim, eu até fiz um álbum, mas não tem foto dela fazendo as coisas dela, entendeu? Que nem: tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada. Mas ela não era daquele jeito, com penteado, com vestido. Sabe o jeito que eu mais lembro dela? De avental. Só que toda vez que tinha almoço lá em casa, festa e alguém aparecia com uma câmera na cozinha, ela tirava correndo o avental, ia arrumar o cabelo, até ficar de um jeito que não era ela. Tenho pensado muito nisso aí, das fotos, falo com os passageiros e tal e descobri que é assim, é do ser humano, mesmo. A pessoa, olha só, a pessoa trabalha todo dia numa firma, vamos dizer, todo dia ela vai lá e nunca tira uma foto da portaria, do bebedor, do banheiro, desses lugares que ela fica o tempo inteiro. Aí, num fim de semana ela vai pra uma praia qualquer, leva a câmera, o celular e tchuf, tchuf, tchuf. Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não? Tá acompanhando? Não tenho uma foto da minha esposa no sofá, assistindo novela, mas tem uma dela no jet ski do meu cunhado, lá na Guarapiranga. Entro aqui na Joaquim?" "Isso."

"Ano passado me deu uma agonia, uma saudade, peguei o álbum, só tinha aqueles retratos de casório, de viagem, do jet ski, sabe o que eu fiz? Fui pra Santos. Sei lá, quis voltar naquele bar." "E aí?!" "Aí que o bar tinha fechado em 94, mas o proprietário, um senhor de idade, ainda morava no imóvel. Eu expliquei a minha história, ele falou: Entra'. Foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapatos e disse: É tudo foto do bar, pode escolher uma, leva de recordação'."

Paramos num farol. Ele tirou a carteira do bolso, pegou a foto e me deu: umas 50 pessoas pelas mesas, mais umas tantas no balcão. "Olha a data aí no cantinho, embaixo." "1º de junho de 1988?" "Pois é. Quando eu peguei essa foto e vi a data, nem acreditei, corri o olho pelas mesas, vendo se achava nós aí no meio, mas não. Todo dia eu olho essa foto e fico danado, pensando: será que a gente ainda vai chegar ou será que a gente já foi embora? Vou morrer com essa dúvida. De qualquer forma, taí o testemunho: foi nesse lugar, nesse dia, tá fazendo 25 anos, hoje. Ali do lado da banca, tá bom pra você?"

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Publicado originalmente 

sábado, 1 de junho de 2013

In the nineteen-nineties

"I never dreamt that I would get to be
The creature that I always meant to be
But I thought in spite of dreams
You'd be sitting somewhere here with me."
- pet shop boys -

"Nunca sonhei que eu chegaria a ser
a criatura que sempre pretendi ser,
mas eu pensava que, independente dos sonhos,
você estaria sentada em algum lugar aqui comigo."
- garotos da loja de animais -
 -

terça-feira, 28 de maio de 2013

Não-pertencimento

Nunca tinha lido VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA,  do escritor carioca Aníbal Machado. Apesar de ter sido escrito em 1959, as aflições e o sentimento de não  pertencimento do protagonista se parecem muito com as chagas emocionais que assolam os habitantes do presente tempo, notadamente a esse que vos escreve.
- marcos daniel -







"Mais do que nunca, sentiu José Maria 
naquela noite a solidão da casa. 
Não tinha amigos, não tinha mulher 
nem amante. E já lera todos os jornais. (...) 
Como vencer a noite que mal começava ? 
Fechou o rádio com desespero, virou dois tragos 
de vinho do Porto, deitou-se. A espaços ouvia 
o barulho do bondezinho brilhando nas curvas 
da colina, a explosão de um e outro foguete 
que subiam da vertente de Águas Férreas, 
seguida de latidos de cães e gritos indistintos. 
Ingeriu outra dose de vinho. E adormeceu."
- Aníbal Machado -

Texto na íntegra AQUI 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Solidão

"A solidão é uma solução muito sozinha.
A solidão é uma solução sozinha.
A solidão não é uma solução
Só minha.
A solidão não é só minha.
A solidão não é sozinha."
- viviane mosé -

"A solidão é pretensão de quem fica
escondido fazendo fita."
- cazuza -

"E dizem que a solidão
até que me cai bem."
- renato russo -

domingo, 26 de maio de 2013

Poema em Linha Reta - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

sábado, 25 de maio de 2013

Quem tem olhos pra ver o tempo


por Viviane Mosé

quem tem olhos pra ver o tempo 
soprando sulcos na pele 
soprando sulcos na pele 
soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda. 
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo 
quem anda me comendo é o tempo 
na verdade faz tempo mas eu escondia 
porque ele me pegava à força e por trás 

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: 
Tempo, se você tem que me comer 
que seja com o meu consentimento 
e me olhando nos olhos!

acho que ganhei o tempo 
de lá pra cá ele tem sido bom comigo 
dizem que ando até remoçando.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Apelo


por Marcos Daniel*

Acho que nós somos dois fodidos.
Nós dois temos problemas.
Nós dois. Eu sei que eu tenho.

Mas isso não significa que 

o que eu sinto não seja verdadeiro...
que eu não possa amar alguém.

E sei que o meu comportamento

é muito, muito ruim.

Mas... então, se você quiser me deixar,

eu compreendo.

Mas, por favor, não me deixe.



_________________________
*Na verdade é a adaptação de um trecho da fala
da personagem Rae (Cristina Ricci no melhor papel 
de sua carreira) no filme "Entre o Céu e o Inferno",
que eu rabisquei inspirado também num trecho 
da canção chatíssima da Clarice Falcão
("Eu queria tanto que você não fugisse 
de mim / mas se fosse eu, eu fugia.").

Eu não vou linkar a música porque 
sério mesmo, é muito ruim !!!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Why ?


This is the book I never read
These are the words I never said
This is the path I'll never tread
These are the dreams I'll dream instead
This is the joy that's seldom spread
These are the tears...
The tears we shed
This is the fear
This is the dread
These are the contents of my head
And these are the years that we have spent
And this is what they represent
And this is how I feel
Do you know how I feel?
'Cause I don't think you know how I feel
I don't think you know what I feel
I don't think you know what I feel
You don't know what I feel
-  annie lennox -


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Martelo Bigorna


- lenine -

Muito do que eu faço
Não penso, me lanço sem compromisso.
Vou no meu compasso
Danço, não canso a ninguém cobiço.

Tudo o que eu te peço
É por tudo que fiz e sei que mereço
Posso, e te confesso.
Você não sabe da missa um terço

Tanto choro e pranto
A vida dando na cara
Não ofereço a face nem sorriso amarelo
Dentro do meu peito uma vontade bigorna
Um desejo martelo

Tanto desencanto
A vida não te perdoa
Tendo tudo contra e nada me transtorna
Dentro do meu peito um desejo martelo
Uma vontade bigorna

Vou certo
De estar no caminho
Desperto.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Face de Narciso


por Jorge Vercillo

O que é o amor? Vai além da minha compreensão.
Para uns é chave e pra outros foi prisão.

O que é o amor? Será desapego ou possessão?
Altruísmo em nós ou apenas auto-adoração?

Face de Narciso por capricho se espelhou
Mas se ela me olha assim, é lindo,
ali eu sei quem sou.

E o que é o amor? É platônico ou será real?
Sonhos de mulher ou pecado original?

E o que é o amor? Penso que só ele pode unir.
Tudo em suas mãos, toda a dualidade em si.

São tantas verdades convergindo ao seu redor.
Não existe a espada sem a lira, o espinho sem a flor.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Vôo de coração

Conheci essa música em 1983, 
(eu tinha 10 anos e já se passaram 30 anos),
e naquela época eu jamais imaginaria que
um dia ela faria tanto sentido.
(...) Como aquele menino, sempre tão imaginativo,
poderia imaginar um futuro desses !?




"No canto da sala, 
no seu holograma,
você parece sorrir.
Você me pisca o olho, 
você me manda um beijo,
parece estar mesmo aqui.

Mas eu só, no apartamento, 
escrevendo memórias 
no velho computador.
Nas asas do tempo, 
vertigem do momento,
vôo de coração, meu amor.

Um mistério e um sorriso 
vão revelar as histórias 
que um belo dia
contarão o nosso momento, 
nesse apartamento,
vôo de coração, meu amor, 
vôo de coração."
- ritchie -

 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Change the world

"Sou alguém que tenta viver duvidando 
o tempo todo das certezas, 
das minhas e das alheias. 
E por isso estou sempre em carne viva. 
Quando acho que sei um pouco sobre mim mesmo, 
eu me desmascaro e escapo de mim."
- eliane brum -


"If I could reach the stars
Pull one down for you
Shine it on my heart
So you could see the truth
That this love I have inside
Is everything it seems
But for now I find
It's only in my dreams."
- eric clapton -


sábado, 9 de março de 2013

você é um temporal atemporal

por Antônio

Preferi pensar em você como se fosse inalcançável. Como as estrelas do cinema, mudo, antigo. O cinema de hoje não tem nenhum apego. As divas são todas iguais: produzidas, facilmente recicláveis. A beleza natural morreu. Mas você sobrevive. É atemporal. É bonita agora, brilharia nos anos 70 dedilhando o solo de Stairway To Heaven em uma guitarra imaginária, teria um charme único na década de 20 lendo as notícias sobre as consequências da Primeira Guerra, e seria sem dúvida a mais bela descoberta do Renascimento, no século XV, ou daqui a 100 anos, (na lua?), onde ainda nem sequer existe padrão estético para defini-la. Preferi pensar em você como se fosse inalcançável; só assim posso me distanciar sem doer de qualquer coração em qualquer época, em qualquer tempo, sem qualquer medo. O esquecimento forçado e a lembrança calejada também são atemporais.