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domingo, 8 de julho de 2012

Se eu Fosse Eu



"Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.


E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais".

- clarice lispector -

sábado, 30 de junho de 2012

Viver




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"Mas há a vida
que é para ser 
intensamente vivida,

Há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.

Sem nenhum medo.
Não mata."
- clarice lispector -

sábado, 23 de junho de 2012

Agora sei: sou só.


‎
















''Minha verdade espantada é que 
eu sempre estive só de ti e não sabia. 
Agora sei: sou só. 
Eu e minha liberdade que não sei usar. 
Grande responsabilidade de solidão. 
Quem não é perdido não conhece 
a liberdade e não a ama. 
Quanto a mim, assumo minha solidão…”
Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo .

terça-feira, 19 de junho de 2012

Quanto me amaste mais do que te amei ?


















"Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua", 
pensou então com auxílio da saudade. 
"Dei-te o nome de José para te dar um nome 
que te servisse ao mesmo tempo de alma. 
E tu - como saber jamais que nome me deste? 
Quanto me amaste mais do que te amei", refletiu curioso.


"Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, 
eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente", 
pensou o homem sorrindo com carinho, livre agora de se lembrar à vontade.


"Lembro-me de ti quando eras pequeno", pensou divertido, 
"tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, 
e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. 
Mas desde então, já começavas a ser todos os dias um cachorro 
que se podia abandonar. 


Enquanto isso, nossas brincadeiras tornavam-se perigosas de tanta compreensão", 
lembrou-se o homem satisfeito, "tu terminava me mordendo e rosnando, 
eu terminava jogando um livro sobre ti e rindo. Mas quem sabe 
o que já significava aquele meu riso sem vontade. 
Eras todos os dias um cão que se podia abandonar."
____________________________________________
Clarice Lispector in
"O Crime Do Professor De Matemática."
Na íntegra AQUI.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Não me alcanço


















‎(...) nem entendo aquilo que entendo,
pois estou infinitamente maior do que eu mesma, 
e não me alcanço.
Clarice Lispector

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Lispector




“Ninguém estará perdido se der amor 
e às vezes receber amor em troca”



Lispector