sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Natal de Doralice



Num ameno domingo de dezembro, véspera de Natal, a dona-de-casa Doralice Carvalho estava sentada na pequena varanda de sua moradia na ruaPedro Soares deAndrade,em São Miguel. Olhao bairro conhecido que já principia a esmorecer de movimento, sossegando no começo da noite. Ao seu lado, também ocupando uma cadeira de plástico branco, seu marido e químico aposentado, Josué Carvalho, faz partedo silêncio. Filhos já criados e casados, os dois já entravam na casa dos 60.

– Dora, qual a cor do vestido que você está hoje?

Fogem os devaneios de Dora. Naquele preciso momento, a mulher pensava numa longínqua data de setembro de 1973, dia de seu casamento. Então, ela responde uma cor qualquer que tinha retida na memória – azul –, que Josué gostava na vida de outros tempos.

Retoma-se o mesmo silêncio de muitos casais antigos. Ela olha em direção às curvas do rio Tietê e, depois, volta para suas antigas lembranças. Numa tarde, estava no Clube da Nitro. Uma fita amarela, que lhe prendia os cabelos, foi o começo de tudo. Quando ela se desprendeu, arrancada pelas mãos ágeis de Josué, os seus cabelos esvoaçaram-se ao vento. Ele acalmou-os, depois desfez o nó do laço e jogou a fita sobre as águas. A fita, então, rodopiou na beira da murada da ponte, caiu, teimou em afundar e ficou boiando.

– O que fiz? – ele se assustou.

Os dois jovens ficaram olhando a fita pegando o rumo da correnteza, até o último momento. Depois, olharam-se parados, sonhando. E riram.

A partir daí, sempre aquela impressão que eram namorados, mesmo. Dora sabia amá-lo. Sorria, sempre, contente. Ele fantasiava histórias, imaginava casos e vestia-os de engraçado. Contava, ria também.

Casaram-se na antiga igrejade São Miguele, durante os cinco dias seguintes, se conheceram mais intimamente num pequeno apartamento emprestado por um colega de trabalho na praia do Gonzaguinha,em São Vicente.

Depois, o dia após dia. Muitas vezes, nalguma tarde, andava apressada – cheia de compras, o dia tão curto –, quase correndo no meio da rua, para esperá-lo. Labutava duro nos cuidados com a casa, mudava, trocava os móveis toda semana de canto. Ele chegava, olhava, aprovava, dizendo bonito. Outros dias, em começos de anoitecer, se assustava em imaginar que aquele seria o instante em que não veria mais o bater do trinco no portão, o limpar de sapatos no capacho, o girar da chave na fechadura. E Dora na sala esperando-o mesmo sabendo que ouviria apenas o seu cansado boa-noite.

Uma noite esperou. Espera fora de costume. Deu para reparar em tudo que era gente que passava na rua. Na cozinha, imaginava ouvir o trinco no portão. Corria à janela, de onde podia vê-lo passar pela varanda. Mas ele não chegava. Então, o trouxeram da fábrica de química. Havia passado a noite no hospital. Ataduras cobrindo-lhe a face, se maldizia:

– Maldito acidente. Onde meus olhos ficaram?

Não se conformava:

– Antes a morte. Sem vista no mundo, pra quê?

Calada, ela ouvia tudo aquilo e sabia que na vida, em muitos de seus meandros, não há caminhos de volta.  Para confortá-lo, sempre respondia:

– Pra tudo tem um jeito.   

Nessa tarde de domingo em que abre suas lembranças no vazio de seu bairro, ela sabe que os móveis, faz muito tempo, permanecem intocados. Mãos espalmadas no braço da cadeira, ela sabe que Josué nunca será o mesmo.

Agora, como faz sempre, ele chama:           

– Dora, me ajuda a ir ao quarto.

Ela desvia o olhar da rua vazia. Levanta. Puxa as sandálias debaixo da cadeira. Chora penosa e limpa as vistas no vestido, que é azul mesmo. Aproxima-se dele e pousa a mão em seu ombro.

Ele levanta seguindo a mulher. Ela guia seu corpo, livrando-o dos baques no sofá, na mesinha de televisão, na porta do quarto.

Junto à cama, ela ajeita o lençol e o travesseiro. Ele senta. Tateia e segura sua mão. Há um sinal de amor antigo e gratidão. Não dá para ver seus olhos.

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Texto de autoria de Roniwalter Jatobá, publicado no Blog da Editora Boitempo.

Oceano




Estou indo meu bem 
Para onde o mar te levar. 
Irei a sua procura, 
Sei que por você vale apena esperar. 
Não medirei esforços para encontrar você. 
A distância não irá mudar o que sinto por ti. 
Espero o mesmo de você... 
Mas o mundo dá voltas e tudo se encontra! 
Sete mares tornam-se pequenos quando falamos de amor.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Se se morre de amor



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Se se morre de amor! – Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebentar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
Clarão, que as luzes ao morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos
Ao grande, ao belo, é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!
Compreender o infinito, a imensidade
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores,murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!
Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; 
onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d’lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!
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(Gonçalves Dias in Se Se Morre De Amor)

Monocromia

"Que me perdoem se eu insisto neste tema 
Mas não sei fazer poema ou canção 
Que fale de outra coisa que não seja o amor 
Se o quadradismo dos meus versos 
Vai de encontro aos intelectos 
Que não usam o coração como expressão 
(...) Mas não faz mal, é tão normal ter desamor 
É tão cafona, sofredor 
Que eu já nem sei se é meninice 
ou cafonice o meu amor."
(Toquinho in Você Abusou)



Sei, caros leitores, que esse modesto Blog se tornou monótono, monocromático, chato talvez... mas não consigo falar, pensar ou agir em torno de outra coisa que não seja a mulher que amo. Espero que vocês compreendam e aguentem firmes... logo logo ela volta e tudo será diferente.

Agradecido !!!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Fulano e Cicrano



"Nada a temer se não o correr da luta. 
Nada a fazer se não esquecer o medo." 
(Maria Eugênia in Caçador de Mim)


Fulano tá com câncer. Nas últimas. desenganado. Decide com a família e os médicos pela Quimioterapia, última esperança desesperada de mais alguns natais. Daí encontra com o "amigo" Cicrano e diz, um tanto otimista, que vai começar a tal quimio amanhã. Pra quê !? Cicrano começa: Rapaz, num faz isso. É perda de tempo. Você vai sofrer à toa. Vai passar mal, dores horríveis, vômitos, diarréia. Seu cabelo vai cair. Tive um amigo que fez e disse que a sensação é que tinha um cachorro comendo ele por dentro. E pra quê, morreu do mesmo jeito o pobre. Larga mão Fulano. Se entrega logo. Morre de uma vez. Pra que esse apego á vida rapaz !? Vai por mim, tô falando isso porque sou seu amigo !!!" 





 É esse tipo de conselho que tenho recebido. 
 Devo desistir da vida porque a luta será doída? 
 Nem fodendo. 
 É minha vida que está em jogo 
Nunca tive medo da luta. 
 Luto porque sei que o prêmio vale muito a pena, 
 qualquer que seja essa pena. 
 Se a morte é inevitável, morrerei lutando. 
 Sou assim mesmo e serei até o fim, 
 qualquer que seja esse fim...


Bola pra frente



Olha só. Fiquei pensando muito no que te dizer nesse dia tão triste. Você sabe o que tenho sofrido, mas hoje fiquei especialmente preocupado com você. Sei que você não merecia sofrer dessa forma, não é justo nem direito. Essa é a questão principal: merecimento. Alguns merecem sofrer, eu inclusive, cavei o poço onde agora estou enterrado. Mas não é esse seu caso.

Compartilho com você também essa sensação de impotência. Ficamos reféns de outra pessoa para quem nós não significamos mais absolutamente nada. Pro outro não existe problema colocado ou a ser resolvido. Pra ele a vida segue, sem dor, sem culpa, olhar posto á frente, planos e sonhos onde não cabemos mais. É triste, é egoísta mas é assim.

Quem sou eu pra te dizer pra tocar a vida pra frente. A minha estancou desde que ela foi embora. Como esquecer ? Como prosseguir ? Como suportar o intolerável !? Meus Deus do céu! Não tenho as respostas, mas sei que vou aprender a conviver com essa dor, esse vazio abissal impreenchível. Acho que vou...

Mas me conforta saber que você, de tão especial, há de superar essa dor na sussa. Não será rápido, mas deixará um aprendizado, espero. Sei que isso fará de você uma pessoa mais completa, mais forte, mais madura. Uma pessoa melhor, com certeza. Não deixe que essa experiência tire sua fé no amor, na vida e sobretudo nas pessoas. Não deixe que o sofrimento torne você uma pessoa pior. Você tem capacidade de arranjar outra pessoa, não digo melhor ou pior, porque isso não vem ao caso. Enquanto isso conte com os amigos, cerque-se deles, use e abuse, torture-os até às vezes, se forem “camaras” vão agüentar firmes e não arredarão pé do seu lado. 

Fique com Deus Camilla, e “quando a chuva passar e o tempo abrir” e aparecer um novo sol na sua vida, não esqueça de dar a boa nova aos amigos, aos “camaras”, pra que eles comemorem com você. 

Força sempre e obrigado por “cuidar” do meu tesouro. 

Abraços.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Paleativos

Essa sua capacidade de se expor, de se desnudar. Acho muito doido ! Exclamou um amigo dia desses, admirado.

Na verdade não é uma capacidade, queridos, é uma necessidade. Sempre fui assim.

Por sorte sempre gostei das palavras. Sempre li muito e sempre gostei de escrever. Mais que isso, gosto do meu traço, gosto de combinar as palavras, manipular sinônimos, antônimos, mixar significantes e significados. Tem me ajudado bastante nesses dias trágicos. Através da escrita desabafo, descarrego toda minha bi-polaridade. O texto me escuta, me entende e me explica. Nele me enxergo, me percebo, converso comigo, me consolo. Nos damos bem já a  muito tempo.

Tenho encontrado conforto na escrita e também no álcool. Pode parecer triste, mas me arrependo de não ter bebido desde o começo disso tudo. Teria me evitado tanto sofrimento. O álcool é mágico. Esqueço instantaneamente da minha tragédia. Passei a ter um certo respeito por quem bebe pra esquecer. Aplausos para nós.

Muito fácil pra você julgar. Rotular-me de fraco, avisar dos perigos. Exclamações e interrogações no conforto de seus relacionamentos estáveis e bem resolvidos. Vão se fuder todos vocês.

Lanço oficialmente a promoção: Pague minhas contas, resolva meus problemas e ganhe o direito de falar da minha vida!!!! Vão se fuder de novo. (Excessão para Hilma, Kênia e Jheylla  e para os demais que tem se preocupado genuinamente comigo (e são muitíssimo poucos) ... e pra quem eventualmente tem me ajudado com problemas e contas).

Abraços.

sábado, 6 de agosto de 2011

Morte e Vida


“Espalhando o que já está morto pro que é vivo crescer.”
(Zé Rodrix in Jesus Numa Moto)

Acho que não seja mais o caso de pensar em sobreviver. Sobreviver a tudo isso restou impossível, muito além das minhas forças. Essa dor delirante, sufocante. Essa angústia que tem me consumido. Essa traição que me amarga a alma e cala e sega o pouco que ainda há de nobre em mim. O corpo dá sinais de esgotamento. Não come, não dorme, sofre apenas. A cabeça, coitada, toda despombalizada, já perde o juízo, não diz coisa-com-coisa, não se concentra, não pensa. Como prosseguir ? Meu coração, tão vital na minha história, insiste e teima e não arreda pé: Quer Ela e pronto.

Se sobreviver a tamanho massacre, depois de tal estrago, o que restará ? Um ser magoado, amargo e triste, carregando “uma pedra no peito”? A alma seca, estéril. O sorriso (?) guardado pra sempre. A alma prostrada, a cabeça baixa. O triste cotidiano acachapante de obrigações e lembranças. Fotos e cartas trocadas. A saudade acenando nos lugares outrora freqüentados, a pulsação acelerada em cada cabelo rebelde, em cada batida na porta, em cada toque do celular. A presença constante da culpa, já em adiantada metástase, se espalhando por todos os aspectos dessa sobre-vida insana.

E o pior. A consciência da própria insignificância por parte da pessoa amada. A outra vida, antes tão unida à sua, segue seu rumo, alheio e indiferente à sua dor. Ser abandonado, substituído e, por fim, esquecido em questão de dias. Como conviver com isso.

Ninguém merece. Eu tampouco.

Já que a moda é pensar apenas na própria felicidade, se o egoísmo é o valor do momento, se o lema é “Serei feliz e os outros que se fodam”, então o melhor é desistir e entregar os pontos. Não vale a pena ser sobrevivente nesse “novo mundo”.

De qualquer maneira, no final a morte vencerá de qualquer forma e em todo e qualquer sentido. Mas será uma vitória já depois da prorrogação, nos penaltis. Embora vencedora, de tão exausta sequer conseguirá erguer a Taça. Mas vencerá.

E depois, que venha a longa estrada do renascimento.

sábado, 23 de julho de 2011

Abrindo o coração !!! (ou O Homem que não sabia amar)

"Por onde andei enquanto você me procurava ? 
E o que eu te dei foi muito pouco ou quase nada."
(Por onde andei - Nando Reis)



"Voe por todo o mar, e volte aqui
Voe por todo o mar e volte aqui
Pro meu peito."
(O Vento - Jota Quest)



Eu sempre soube o quão maravilhosa você é, grande amiga, orgulho de filha, irmã dedicada, esposa amorosa, prestativa, carinhosa, linda, gostosa, mulher batalhadora, inteligente, isso sem falar do ponto que acho principal em você, e o que mais admiro, um caráter único. (Espero aprender principalmente isso com você). E agora descubro também como você pode ser generosa... e paciente.

Tivemos uma VIDA de grande intimidade sim senhora. Houve pedras, reconheço, mas nego essa versão cinza-grená, editada apenas com os piores momentos, só com sangue e vísceras e lágrimas e mágoa. Trago gravado na minha retina momentos de companheirismo, de ternura, de carinho no cabelo, de planos, de erros mas também de acertos, vitórias e derrotas, surpresas, risos...

É.... a saudade mata a gente loirinha !!!

Preciso destacar os amigos, grandes amigos, incríveis, inesquecíveis, insubstituíveis, que o tempo deixou pelo caminho e que agora fazem tanta falta.

Eu sei, esses foram momentos coloridos que você proporcionou para mim, sem a devida contra-partida de minha parte. Fica fácil enxergar beleza quando não se tem lágrimas nos olhos. Pra variar, concordo com você nisso também.

Mas você, coração magoado, porém justo, concordará comigo que EM NENHUM MOMENTO EU NEGUEI NINHA INTEGRAL PARCELA (?) DE CULPA com relação a essa desgraça que se abateu sobre nosso casamento. Não discuto isso. É ponto pacífico.



Mas fica a pergunta: Que tipo de idiota perde TUDO isso ?. Porque eu não cuidei e não valorizei tamanho TESOURO que é você ? Porque eu não reguei a plantinha ? Porque ?

Agora eu sei.

Apesar de conhecer você como ninguém, apesar de REALMENTE AMAR VOCÊ COMO NINGUÉM JAMAIS SERÁ CAPAZ DE AMAR, apesar de ter uma visão clara de todos os seus predicados, o que me faltava era ME AUTO CONHECER A MIM MESMO, entende !? (Pleonasmo não devia ser pecado!)

Eu não tinha idéia do quanto EU AMO VOCÊ.

Não ria, mas milagres ainda acontecem.

Te agradeço por ter me feito enxergar isso. Você fez tanto por mim durante todo esse tempo que vivemos juntos e até agora, me fazendo sofrer tanto, você ainda me dá alguma coisa. Eu não sabia o quanto eu amava você, e por mais lugar comum e canalha que isso possa aparecer, agora, na merda, comendo o pão que o diabo amassou com a bunda, só agora eu vejo O QUANTO EU AMO VOCÊ.

Ines é morta !? Talvez.

A grande diferença, Fabíola, e digo isso olhando nos seus olhos, mas mirando sua alma (e desejando sua boca), é que agora, depois desses 71 dias de calvário, eu restabeleci inúmeros relacionamentos. Retificando alguns, ratificando outros, o fato é que hoje eu sou alguém diferente em diversos aspectos, mas sobretudo nos relacionamentos. Aqui estou eu, rabinho entre as pernas, na humilde, pedindo colo para pessoas que, assim como você, me amam muito mas foram negligenciados por mim por muito tempo.

A diferença é que Pai não pede separação. (mãe acho que sim... mas essa é outra história).

Essa ênfase nos relacionamentos inclui esse difícil convívio diário do Marcos com o Daniel, as vezes tão antagônicos, tão diferentes um do outro. Mas tem sido bacana.

Vou terminar agora. Atenção

Te amo, já concordamos sobre isso. Outro ponto pacífico.

A GRANDE DÚVIDA que fica é se serei capaz de ser o HOMEM QUE VOCÊ MERECE.

A resposta é SIM.

Mas o que mudou, Marcos ?

É que hoje eu sei o quanto eu amo você. Não adianta você saber o valor da pessoa que está ao seu lado se você não sabe que você a ama. E hoje eu sei, e como sei. E você também sabe que ninguém te ama como eu.

E tem mais. Eu fiz as pazes comigo, eu me perdoei por todo o mal que eu fiz a você, meu tesouro, e extensivamente a mim mesmo.

Eu errei, eu sofri, mas encontrei a resposta.

Agora eu estou pronto para o novo. Produzindo, vivendo, te amando e esperando, pelo tempo que for.

E quando você me perdoar, e estiver pronta para o novo, é só você estalar o dedo, que o nosso futuro começa.


"E nossa história não estará pelo avesso assim, 
sem final feliz. Teremos coisa bonitas pra contar.
E até lá vamos viver, temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás, apenas começamos
O mundo começa agora. Apenas começamos."
(Metal contra as nuvens - R. Russo)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Carta ao meu pai.

Primeiro quero dizer que tenho passado dias importantes. Coisas impressionantes, positivas e negativas, tem acontecido. Nunca conversamos, eu e você, sobre muitas coisas, mas estou ansioso em encontrá-lo pessoalmente para compartilhar tudo de bom e de ruim que tem acontecido na minha vida. Confesso que os últimos 10 dias foram provavelmente os mais intensos de toda a minha história.

Nesses dias tenho lutado com uma determinação nunca antes vista nestes meus 37 anos de vida. Pode parecer um pouco tarde pra isso, mas o tempo de lutar é agora. Tenho lutado por algo que é muito importante para mim e essa luta tem me transformado rapidamente. Posso dizer sem medo de errar que não sou o mesmo de dias atrás.

Mas a luta tem deixado marcas e feridas, e mortos pelo caminho. Se estou mais maduro, mais disciplinado, mais concentrado e muito mais otimista com relação à vida, também estou ferido e magoado. E magoado, talvez, da pior magoa possível, de uma magoa comigo mesmo. Preciso fazer as pazes comigo... mas essa ainda é uma longa estrada.

Hoje, passando pela mesma situação pela qual você passou 20 e tantos anos atras, minha memória me permite avaliar o fantástico esforço que você empreendeu, na época, para reduzir, na medida do possível, todo o trauma que uma separação poderia acarretar a dois menininhos de 10 e 15 anos. Hoje lhe sou grato também por isso. Você preencheu com dedicação todas as lacunas de minha infância. Carinho, pulso e sobretudo amor. Obrigado



"A lição mais valiosa que tiro (...) 
é que precisamos cuidar de quem amamos."




Obrigado também por ter feito questão de investir em minha educação, me mantendo, a duras penas, em uma das melhores escolas da cidade. Ainda hoje colho frutos disso.

Me arrependo de muitas coisas que fiz até aqui, mas principalmente do que deixei de fazer. Deveria ter me aproximado mais de vocês todos. Da minha mãe Eliana, do meu irmão e de minhas irmãs queridos e principalmente de você. Agora sinto o peso de ter saido daí da forma como saí, meio pela porta dos fundos.

Me lembro da meninas ainda muito pequenas, a casa sempre animada, muitas crianças, primos, sobrinhos, tios e tias, e eu, então com apenas 16 anos e já muito chato, fechado em meu quarto ouvindo minhas músicas e evitando justamente o convício que hoje me faz tanta falta.

Perdi uma fase importante da vida das minhas irmãs, de modo que agora não tenho nem muita intimidade para conversar com elas. Gostaria de falar e ouvir o que elas tem a dizer, pedir conselhos. Ter longas conversas com a Anadir nessa nova fase de sua vida, poder compartilhar mais de perto suas vitórias. Poder rir com a juventude da Heloísa e me deliciar com o jeito acolhedor da Fernanda. Todas herdaram o brilho da mãe. Poder dizer que as amo, todas as quatro, e muito. Dizer que estou aqui, como irmão mais velho, para o que der e vier. Não sei que opinião elas tem a meu respeito. Mas preciso que elas saibam que tenho pensado muito nelas esses dias de solidão. Estou chorando agora, mas isso tem sido bem comum nesses dias.

O que dizer do Junior então. Tenho fotos de minha infância com ele e tenho me debruçado sobre essa infância demoradamente, tentando entender essa estrada que me trouxe até essa encruzilhada. Gostaria de sentar ao lado dele agora, para lembrarmos do Pé de araçá da casa da Dona Carmem, do carrinho de controle remoto, das briguinhas bobas. Me lembro que eu, sempre com a saúde frágil, tinha inveja dele por praticar esportes, empinar papagaio, jogar pião e principalmente por lavar o carro, com direito a uma voltinha depois. Eu o admirava muito, mas a vida nos separou muito cedo. Gostaria de poder ligar pra ele e, superando a angustiante falta de assunto, compartilhar essa sua experiência de ser pai e o bem que, imagino, isso esteja fazendo para todos os três.

Nunca senti falta da minha mãe, e se disser que estou sentindo agora estarei mentindo. Desisti dela faz tempo, algum tempo depois dela ter desistido de mim. Mas não há tempo para mágoas. Prefiro acreditar em alguém que tentou ser mãe, mas não levava (ou leva?) o menor jeito pra isso.

A Eliana tem sido uma Mãe espetacular. Madrasta é uma palavra carregada de preconceito. Se minha vida tivesse sido madrasta teria sido muito melhor. Dedicação e paciência sem ter obrigação disso. Junto com meu pai, exemplo e referência de dedicação e amor à familia. Obrigado.

Como já disse coisas fantásticas tem acontecido dentro de mim numa velocidade difícil de acompanhar. Gostaria de estar com todo mundo que amo. A lição mais valiosa que tiro da Grande Tristeza é que precisamos cuidar de quem amamos, porque a indiferença tem conseqüências terríveis, cobra um preço extremamente alto... e a vida prega peças na gente.

Espero que possamos nos ver em breve. Desejo mesmo cuidar melhor de todos que amo, mais ainda vai levar um tempo até me levantar de novo. O tempo agora corre contra mim em muitos aspectos. Quero cuidar de todos mas preciso ser cuidado agora, e essa posição de carência, por ser nova, me é um pouco desconfortável.

Me despeço dizendo que te amo muito, pai, e pedindo perdão pela maneira indiferente como tenho lhe tratado durante toda minha vida, por ter relegado nossa relação a natais e aniversários. Devido a esse comportamento perdi, talvez pra sempre, alguém que era o meu ar e minha inspiração e, repito, aprendi que é preciso aproveitar urgentemente os momentos com quem amamos.




Mas não é fácil fazer as pazes com o passado. 

Do seu filho 

Marcos Daniel 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Minha versão da parábola... (ou Ao Amigo Distante)


Tinha um cara muito muito muito rico que tinha um Camaro amarelo-ovo com banco de couro, mas era ruim que só o cão. E tinha esse outro cara, de nome Lázaro que vivia na merda, mas era super camarada, do bem mesmo, fã do Zeca Pagodinho e tudo o mais.

Morreu o tal Lázaro, o mendigo, e foi pra um lugar bacaninha, com clima ameno, céu aberto sem previsão de chuva forever.

Morreu o rico lazarento e se fudeu, foi pro inferno, também sem chuva, mas um calor de arrancar pica-pau do oco.

Abraçado ao Capeta o rico olha pra cima e consegue ver o ex-mendigo seboso de boa, na sombra, comendo uma tigela de açaí com moranguinho picadinho e melzinho na ilustríssima companhia do próprio Jesus.

Daí o safado, na humilde, pede autorização pros superiores para que Lázaro “(...) molhe a ponta do seu dedo, e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama!”

Mas daí a CCJ do Céu julgou o pedido inconstitucional.

Enfim... se fudeu o Mané. Isso porque ele nem sabe que o filho bateu o Camaro amarelo-ovo dele logo depois do enterro.

(Lucas, Cap. XVI, v. 19-31.)

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Nota 1) Eu, no caso, sou o rico. Tô fudidaço!!! A diferença é que eu sei que tão zoando meu Camaro.

Nota 2) Hoje recebi um email de uma amigo que não vejo faz 20 anos. Era Lázaro molhando a ponta dos dedos e refrescando minha lingua.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Bala e o Festim


I know someday you'll have a beautiful life,
I know you'll be a star In somebody else's sky.
But why, can't it be mine !?
(Black - Pearl Jam)

Afirmo com convicção, e assumindo o risco da execração, que a separação é pior do que o luto. 

Porque o luto, por pior que seja, é um ponto final. O luto não dá margem à esperança. 

No luto há apenas dor, saudade, talvez revolta, uma tristeza abissal, com certeza, mas não esperança. 

Na separação fica esse resíduo persistente da esperança, sempre uma "mas", um "talvez", um "será!?", uma dúvida. 

É o celular que toca, a batida na porta, uma voz chamando seu nome, tudo é pretexto pra acordar a esperança.

Mesmo depois da frase "conheci outra pessoa" a esperança persiste, latejante. 

Mas por favor, não estou aqui reclamando da esperança. 

Quem ousará retirar das mães dos desaparecidos, daquelas que não puderam enterrar seus filhos, a companhia silenciosa da esperança.

Se a esperança é tudo que a vida me reserva, fico com ela. 

Tirarei ela pra dançar, tomaremos uma garapa em frente à Catedral nas noites de insônia. 

Ela ouvirá minhas histórias e lembranças. 

Riremos juntos para, depois quem sabe, morrermos abraçados à saudade.

Enfim, entre o som do disparo e o impacto da bala, SEMPRE haverá a esperança de um festim.

É a vida que segue... ou não !?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Valsa Brasileira___chico buarque / edu lobo



Valsa Brasileira___chico buarque / edu lobo

Vivia a te buscar
Porque pensando em ti corria contra o tempo
Eu descartava os dias em que não te vi
Como de um filme a ação que não valeu
Rodava as horas pra trás, roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho pra encostar no teu

Subia na montanha
Não como anda um corpo mas um sentimento
Eu surpreendia o sol antes do sol raiar
Saltava as noites sem me refazer
E pela porta de trás da casa vazia
Eu ingressaria e te veria
Confusa por me ver
Chegando assim mil dias antes de te conhecer

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Renato Russo e Legião Urbana inspiram novos filmes nacionais


Em breve, uma Brasília diferente da exibida diariamente nos telejornais ganhará as telas dos cinemas brasileiros. Dois longas-metragens baseados na obra da banda Legião Urbana e na vida de seu vocalista, Renato Russo, além de um documentário sobre o rock brasiliense na década de 1980 prometem jogar luzes sobre um dos momentos mais instigantes da música popular brasileira e atrair um olhar diferenciado para a capital do país.

O cineasta Vladimir Carvalho garimpou em seu arquivo pessoal as imagens que utilizará no documentário Rock Brasília – Era de Ouro. Entre as muitas cenas históricas captadas pelo próprio documentarista há imagens como as do último show da Legião Urbana em Brasília, realizado em 18 de junho de 1988, no estádio Mané Garrincha, ocasião em que um quebra-quebra deixou centenas de feridos.

Dirigido pelo cineasta brasiliense René Sampaio, o longa-metragem Faroeste Caboclo se inspira na famosa canção sobre a saga do “aprendiz de carpinteiro” João de Santo Cristo no Distrito Federal (DF), onde ele se torna “bandido destemido e temido” antes de conhecer Maria Lúcia, “uma menina linda”, a quem ele promete seu amor.

As principais cenas estão sendo filmadas na Cidade Ocidental (GO), a cerca de 40 quilômetros do centro de Brasília. As ruas do município goiano retomam as de Ceilândia no final da década de 1970 – cidade do DF onde, na letra da música, ocorre o duelo mais conhecido do rock nacional. A expectativa é que o filme seja lançado ainda este ano.


Com Fabrício Boliveira e Isis Valverde nos papéis de Santo Cristo e Maria Lúcia, o elenco conta ainda com Felipe Abib, Antonio Calloni e um grande número de figurantes. Segundo o produtor Marcello Maia, além de quatro estudantes de cinema de uma universidade local, a produção empregou mais de uma centena de profissionais brasilienses, gerando empregos diretos e indiretos. E irá surpreender quem acha que Brasília se limita aos cartões-postais do Plano Piloto.

Outra produção a se apropriar de uma canção da Legião Urbana, Somos Tão Jovens é dirigida por Antonio Carlos da Fontoura. O filme trata da adolescência de Renato Russo, fase em que, devido a uma doença óssea rara, o futuro ídolo tinha de permanecer em casa, lendo e sonhando com o sucesso. Muitas das suas canções que mais tarde se tornariam conhecidas começaram a ser compostas neste período.





Fonte: Vermelho

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Apelo___dalton trevisan

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

Aaron Lewis - Black (Pearl Jam)

"...I know someday you'll have a beautiful life,
I know you'll be a star
In somebody else's sky,
But why, why, why
Can't it be, can't it be mine..."


quinta-feira, 9 de junho de 2011

3porcento

A história é simples. Em um futuro próximo, o mundo seria dividido em dois lados, um bom e um ruim. No “lado bom” há uma vida próspera, com curas para doenças, bons trabalhos e boa remuneração. No “lado ruim”, todos vivem de serviços e ganham mal, sofrem. Ao chegar aos 20 anos, as pessoas do lado ruim podem tentar entrar para o “lado bom”, mas só 3% conseguem (sacaram o nome?). A série conta a história de alguns postulantes ao “lado bom”, e as perigosas provas que enfrentam.

É uma metáfora simplória do vestibular. No mundo real, apenas 3% dos brasileiros conseguiam completar um curso universitário. Mas a série não deixa de ser interessante, e provoca curiosidade por uma possível continuação. Pelo menos a produção é bem cuidada, e os atores, desconhecidos, não decepcionam.



Veja também o Episódio 2 e o Episódio 3.

Fonte: Revista Época.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Oswaldo Montenegro - Metade

Desde a minha adolescência eu sempre ADOREI esse texto,
e esbarrei com ele várias vezes ao longo da vida.
Mas jamais poderia imaginar que um dia ela faria tanto sentido.






Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Pitanga em Pé de Amora

Diego Casas - violão e voz
Daniel Altman - violão 7 cordas e voz
Ângelo Ursini - saxofone, clarinete e flauta
Gabriel Setúbal - trompete, violão e voz
Flora Poppovic - percussão e voz

O grupo paulistano Pitanga em Pé de Amora é formado por 4 rapazes e uma moça, idade média 24 anos, com um trabalho 100% autoral. Influenciados por gente do porte de Guinga, Tom Jobim, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro e Pixinguinha, os cinco amigos de adolescência, compositores e intérpretes, apresentam um frescor a canção popular com seus instrumentos acústicos. Ângelo Ursini (saxofone, clarinete e flauta), Daniel Altman (violão 7 cordas e voz) e Gabriel Setúbal (trompete, violão e voz) se revezam nas composições do grupo que tem Diego Casas (violão e voz) como letrista oficial. E, Flora Poppovic, além da percussão precisa, principal intérprete, dá o toque feminino à banda com sua linda voz. Os arranjos se resolvem sempre de maneira coletiva – sambas, choros, frevos e canções fazem parte do repertório. A revista Época SP (set/10) elegeu o Pitanga como a “melhor banda nova” e a revista Marie Claire (mar/11) cita o grupo como “ótima promessa da música brasileira”. O cd de estreia, gravado no Espaço Cachuera! no segundo semestre do ano passado, foi disponibilizado na internet assim que ficou pronto – integral e gratuitamente – no site www.pitangaempedeamora.com.br, e continua lá. Sucesso de crítica, a turnê oficial de lançamento do cd se iniciou com show no Auditório Ibirapuera, dia 08 de maio, com casa lotada em pleno Dia das Mães. O Pitanga participou também recentemente de programas de rádio (CBN, Eldorado, Jovem Pan, USP FM, Cultura Brasil, etc.), do programa Sr. Brasil/TV Cultura, de Rolando Boldrin, e do programa Estúdio i (GloboNews).

Download integral e gratuito do cd no site da banda: www.pitangaempedeamora.com.br


domingo, 29 de maio de 2011

Geni e o Zepelim

Letra: Chico Buarque
Interpretação:Maria Eugênia
Violão:




De tudo que é nego torto do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes, dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada

Dá-se assim desde menina na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato

E também vai amiúde com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade e é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni, joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um, maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante, entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios, abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante desceu o seu comandante
Dizendo – Mudei de idéia

Quando vi nesta cidade tanto horror e iniqüidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama se aquela formosa dama
Esta noite me servir

Essa dama era Geni, mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um, maldita Geni

Mas de fato, logo ela, tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso, tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro

Acontece que a donzela, e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre, tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos

Ao ouvir tal heresia a cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai Geni ! Vai com ele, vai Geni !
Você pode nos salvar, você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um, bendita Geni

Foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante, entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco

E ele fez tanta sujeira, lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia e a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni ! Joga bosta na Geni !
Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um. Maldita Geni !